segunda-feira, 20 de julho de 2009

Efeito de uma droga

Passei pela cozinha às 9 da manhã. Tudo ainda estava lá: o pote de manteiga aberto, a faca suja, o pão que você cortou e nunca comeu, os copos que usamos, o guardanapo manchado do vinho que escorreu em tua boca, o vinho aberto, o cinzeiro com o cigarro que deixou pela metade e as migalhas de biscoito na toalha da mesa.
Lembrei do que acontecera na noite passada. A qual eu não me esqueceria tão cedo. Ainda mais pelo meu medo de retirar todo aquele cenário em que estivemos, por achar que assim tudo acabaria definitivamente.
Você balançava as pernas num ritmo acelerado, tinha lágrimas nos olhos e olhava pra mim como se fosse a única vez que o tivesse feito. Balbuciava desesperadamente algo que eu não entendia.
Sentei-me ao seu lado, mostrando que tinha tempo e muita disposição pra todo o seu drama.
Lentamente, você se acalmou. Disse num tom suficientemente audível por mim: “você não vai me perder como eu me perdi”.
Não entendi o que quis dizer. Só mais tarde eu saberia. Mesmo assim, te abracei tão forte quanto pude e beijei sua face molhada por suas lágrimas. Era a primeira vez que nos tocávamos. Minhas únicas palavras de consolo foram “tudo vai ficar bem”, sem ao menos saber do que se tratava.
Convidei-te para assistir um filme. Você disse que logo iria. Adormeci no sofá e, só agora, vi que você se foi.
Aliás, percebo que nada disso acontecera de verdade. Era apenas um ensaio cinematográfico de um filme que nunca existira ou existirá.
E, na noite passada éramos só eu e eu chorando sem consolo e ouvindo a sua música. Nunca estivemos mais perto do que isso.

domingo, 21 de junho de 2009

Frio das chamas.

Estava escuro. O pouco que enxergava era com a luz de duas velas.
Eu sabia onde estava, mas não reconhecia um móvel sequer daquela sala. Estava escuro!
As velas derretiam rapidamente. Era notável. Mantinham o calor enquanto lá fora ventava e chovia.
Eu senti sua respiração ofegante se aproximando. Percebia que queria dizer algo.
O calor continuava e as velas derretiam.
Ouvi seus passos cada vez mais altos acompanhando sua respiração lentamente. Era tortura. Era o inferno. Cada vez mais alto, cada vez mais perto. Era um pesadelo. Era o inferno.
De repente, um silêncio tomou conta do lugar. Não era um alívio. Aquilo ensurdecia, atormentava, doía, confundia.
Senti algo gelado e úmido nas costas. Era pegajoso, coberto de culpa; e aquilo penetrava em mim profundamente, como um castigo. Não sentia mais nada vivo.
Eu a conhecia, mas não sabia o que era. Fixei olhares no que parecia ser sua face, mas não reconheci seus traços.
A sala foi invadida por uma escuridão maior e foi congelando aos poucos. As velas derreteram por completo. Eu não a sentia mais por perto.
Era alucinação. Era o inferno.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O vinho das rosas.

Colhia flores naquela tarde, lembrando daquelas palavras que por muito tempo vinham ecoando em sua mente.
Avistou as mais lindas flores daquele campo. Rosas brancas.
Pegou uma delas desejando paz, mas foi surpreendida com um espinho que além de espetá-la, quebrou, fazendo-a sangrar. A rosa foi tomando uma cor avermelhada, aparentando mais bonita e atraente do que antes.
Sua ferida minúscula coagulou em pouco tempo, mas o espinho permaneceu atravessado. Ela não se incomodava com aquilo, pois causava uma dor prazerosamente suportável.
Olhava para a rosa manchada com repudia enquanto aquelas palavras voltavam a assombrá-la de uma forma agradável. Naquele momento soube o que fazer: deu a rosa ao dono dos sussurros, com a intenção de despertar uma novidade. Porém, não houve ao menos um sinal de que sua ação havia sido reconhecida.
Não hesitou. Puxou com força o tal espinho e permitiu-se sangrar até a morte.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ainda Não.

Não se sentia bem naquele lugar. Decidiu ir embora.

- Tudo bem se eu for mais cedo hoje, só hoje?
- Sim. Pode ir!

Foi segurando suas lágrimas, chorando internamente e desejando intensamente não tornar aquilo tão explícito. Parou numa esquina e, enquanto esperava a hora certa para atravessar a rua, pensava se ir pra casa era realmente o que queria. Não era; mas agora que já estava no meio do caminho, não havia lugar melhor para ficar. Continuou seu trajeto.
Finalmente chegou ao lugar que lhe proporcionava certo conforto para fazer o que não tinha em mente, mas que era necessário. Trancou-se no quarto e chorou.
Chorou com alma e prazer.
De longe, avistou sua caixinha de lembranças. Havia uma carta recentemente escrita para ser entregue naquele mesmo dia.
Levantou-se, abriu a caixa, pegou a carta e leu a última palavra escrita. Rasgou com ódio e arrependimento, e secou seu rosto com aqueles pedacinhos de papel.
Ainda não era a hora certa.


She thought it was her last day. She could smell death, but couldn't feel anything.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Respostas em Pó de Café.

O despertador tocou mais cedo naquela manhã. Ela acordou, passou as mãos nos olhos, e levantou-se. Não pensou muito no que fazer. Pegou sua toalha e dirigiu-se ao banheiro.
Depois de pronta, foi para a cozinha. Tomou seu café enquanto esperava companhia para sair de casa.
Problemas e perguntas tomavam conta de sua cabeça. Milhões de soluções e respostas surgiam. Um sorriso fechado aparecia em seu rosto de aparência não muito cansada.
Ouviu seu nome chamado por um grito. Levantou, caminhou até a sala, abriu a porta e convidou sua companhia para um café. Seu convite foi recusado, pois já era meio tarde para não sair de casa naquele exato momento. O tempo havia passado, ela não havia percebido. Escovou os dentes com pressa e foram aonde eram obrigadas a ir: o lugar em que seus problemas estavam. Aliás, foi lá mesmo aonde perdeu suas respostas e soluções e ganhou um sorriso falso no rosto, enquanto, por dentro, era engolida por suas ações (ou pela falta delas).

domingo, 19 de abril de 2009

A noite que não foi.

Naquela noite, riram e conversaram sobre tudo o que vinha em mente.
E aquela comemoração tão importante já não importava mais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cadeado imaginário

Por mais que eu saiba que não é realmente possível, eu ainda tenho isso em mente.
Estou trancada em um mundo inexistente. Gosto disso, mas quero voltar à realidade.
Quero voltar à realidade, mas ela me assusta.